terça-feira, janeiro 13, 2009

Coitado do Passarinho


O fidalgo, enquanto aguardava pelo Rei, deu meia dúzia de passos no vasto salão da Casa da Mina, olhando para o rio acanhado de naus e caravelas e foi encostar-se a uma das janelas viradas ao sul, contemplando o movimento dos pedreiros nas obras dos Jerónimos, à beira-Tejo.
D. Diogo Pacheco, já mal se recordava da capela que existira no local, mandada erigir pelo Infante D. Henrique em honra de Nossa Senhora de Belém e do antigo bairro de marinheiros e pescadores que a rodeava, dando cor e vida aquele espaço, até à sua demolição, por decreto régio de de 23 de Junho de 1496.
- Em que meditais? Acaso vos desagrada a magnificência da obra que daqui vedes? - perguntou irónico, o Monarca, acabado, de entrar silenciosamente no salão.
- É muito bela, meu rei e senhor! - respondeu o fidalgo, fazendo uma vénia perante a simiesca figura de El-Rei D. Manuel - Em cada dia que passa mais grandiosa fica.
- Então qual o motivo para o vosso semblante tão carregado? Que vos atormenta o espírito, meu leal súbdito? - inquiriu o cognominado Venturoso, enquanto se sentava na sua sédia real.
- Oh, nada de especialmente grave. Nada que justifique a preocupação de vossa senhoria. - retorquiu o fidalgo, sentando-se junto ao Rei, num banco de pinho. - Estava só a pensar naquele pobre passarinho que o nosso velho cronista "O Fotociclista" ali postou, já faz um ror de tempo. Até quando será, que o desgraçado vai resistir ali sozinho, pendurado ao frio?

[um bocadinho (adulterado, o José Manuel Saraiva perdoa-me) do romance "Aos Olhos de Deus"]

1 comentário:

Anónimo disse...

Bicho:
Das duas uma: ou o passarinho já morreu ou está em alguma gaiola de pássaros sem abrigo.
Espero que seja a segunda hipotese. Está um frio do caraças e eu mais o chefe e o Nabão vivemos ao calor possivel dos aquecedores, cobertores, bebidas quentes.
Eu quase nem saio de casa, eles saem para os passeios higiénicos do canito e voltam os dois a bater o dente. Estamos os três velhos. Eu levo o dia a invejar os ursos. Queria hibernar. Se o calor não vem, acho que os Alcatruzes param.
Beijo
Maria

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