sexta-feira, março 31, 2006

o Fecho Eclair


Filipe II

Foi dono da terra,
foi senhor do mundo,
nada lhe faltava,
Filipe Segundo.
Tinha oiro e prata,
pedras nunca vistas,
safira, topázios,
rubis, ametistas.

Tinha tudo, tudo
sem peso nem conta,
bragas de veludo,
peliças de lontra.
Um homem tão grande
tem tudo o que quer.
O que ele não tinha
era um fecho éclair.

(ainda não encontrei no meu arquivo de fotografias a imagem adequada para este poema de António Gedeão)

quinta-feira, março 30, 2006

Vaya con Dios


Se llegó el momento ya
de separarnos
en silencio el corazón
dice y suspira:
vaya con Dios mi vida,
vaya con Dios mi amor.

Las campanas de la iglesia
suenan tristes
y parecen que al sonar
también me dicen:
vaya con Dios mi vida,
vaya con Dios mi amor.

(antiga canção popular)

Não tem nada que ver com o famoso grupo de origem Belga que todo o mundo conhece - os "Vaya con Dios", que cantam em Inglês - e ouvi dizer que vão voltar à actividade.

malmaquer azul



E quando agarro a madrugada,
colho a manhã como uma flor
à beira mágoa desfolhada,
um malmequer azul na cor,
o malmequer da liberdade
que bem me quer como ninguém,
o malmequer desta cidade
que me quer bem, que me quer bem.

(Ary dos Santos)

quarta-feira, março 29, 2006

Linhas tortas


Não escrevo direito por linha tortas
sempre escrevi em folhas sem linhas
mas hoje encontrei estas linhas escritas
numa velha folha de papel de 25 linhas
Dizia assim:
Não gosta de folhas de papel com linhas
Quem só andou na linha até à 4ª classe
Depois, só na linha do comboio, em viagem.
Até na universidade alinhou mas pouco.
Desalinhado na guerra sem saber porquê
Partiu a linha dos Telefones bastante cedo
E apareceu na RTP ou comunicação sem linha
Foi bom, o iniciado no ecran das 15.625 linhas.
Mas cedo também aqui foi a linha desligada.
Desde então foram muitas as linhas de fuga
Pouco tempo perseguindo uma linha perspectiva
Talvez apenas por uma questão de pilinha
Fica-se por aqui a ligar linhas de terminal IBM
Mais as linhas de pesca anzóis canas e iscas
Com as linhas de água da maré alta e baixa
Às vezes agarrado à linha de cozer remendos
Outra vez com a linha cirúrgica presa ao corpo.
Enfim com a liberdade presa por uma linha
E a palma da mão com muito poucas linhas
Escassas e curtas como é a linha da vida
Assim foi chegando ao fim da linha
Vai finalmente entrar na linha... e na CEE
E para isso é só ir beber um chá de linhaça!
Na ervanária dizem - bom para manter a linha.
E dá Deus agulhas a quem não tem linhas!!!
(luís, 1985)

Janela para ver (11)


Minha varina,
chinelas por Lisboa.
Em cada esquina
é o mar que se apregoa.

Nas escadinhas
dás mais cor aos azulejos
quando apregoas sardinhas
que me sabem como beijos.

(Ary dos santos)

terça-feira, março 28, 2006

Porta feita Janela


... ou janela feita porta.
O Tempo e o Espaço reunidos numa imagem.
Ou um motivo para dissertação de filosofia poética.
Ou o passado aguardando a abertura para o futuro.
Porta - tempo, passado, filosofia;
Janela - espaço, futuro, poesia;
Uma porta fechada, abre na minha imaginação um monte de ideias para escrever:
leva-me normalmente a filosofar, ou a pensar noutras vidas, noutras pessoas, gente dos romances do Eça ou do Zola.
Já o tenho dito - "uma porta é uma viagem no tempo".
Uma janela fechada,
abre no espírito uma esperança,
promessas de viagem no infinito
do espaço que a vista alcança.
"Uma janela é um convite à poesia".

with a man


What's a woman when a man
Don't stand by her side?
What's a woman when a man
Has secret to hide?

She'll be weak, she'll be strong
Struggle hard, for so long

What's a woman when a man
Don't go by the rule?
What's a woman when a men
Makes her feel like a fool?

When it right, turns to wrong
She will try, to hold on
To the ghost of the past
When love was to last
Dreams from the past
Faded so fast

All alone in the dark
She will swear
He'll never mislead her again

All those dreams from the past
Faded so past, ghosts of the past
When love was to last

All alone, in the dark
She will swear cross her heart
Never again
Cross my heart
Never again

(Vaya Con Dios)

as andorinhas


Os putos da minha infância costumavam declamar um poeminha sobre os Passarinhos.
Toda a gente conhece, mas... agora esqueci-me, vou ter que procurar.
A única coisa que me ocorre agora são os "passarinhos fritos" que se faziam antigamente nas tascas de Lisboa e arredores. Deve ser por estar com fome.
Assim não dá para pensar em poesias. Fica para logo à tarde. Vou comer e dormir um bocadinho.
Eu não queria matar mais passarinhos - coitados, já lhes chega o H5NU - mas só me lembrei do poema daquele fado e ditado português:

"Por morrer uma andorinha".

Vivo a vida como dantes
Não tenho menos nem mais
E os dias passam iguais
Aos dias que vão distantes

Horas, minutos, instantes
Seguem a ordem austera
Ninguem se agarre à quimera
Do que o destino encaminha
Pois por morrer uma andorinha
Não acaba a primavera.

segunda-feira, março 27, 2006

Reflectindo mais


Reflexões obnóxias II

Os "intelctuais do computador" são verdadeiros mercenários empenhados numa guerra a favor da uniformização e da monotonia e contra a imaginação e a sensibilidade - e pior que isso, contra si próprios.
As manifestações psico-somáticas, a ansiedade, a angústia, a depressão e a melancolia por fim, são as feridas e mutilações mais frequentes nos combates desta guerra de nervos em que, já não há, nem sequer, tréguas de natal. São 24 horas por dia, de lutas.
Bem que disse o louco Irlandês - mestr Almada Negreiros:
"Cansou-se o mundo a pensar, estafaram-se os sábios a estudar e nunca acharam o remédio... de parar!"

nossas ruas 10


"... OU SILVA DE VÁRIOS APOTEGMAS "

Qualquer homem tem três pátrias:
uma da origem, outra da natureza e outra do direito.
A pátria da origem é aquela em que os nossos maiores foram e viveram; a da natureza é a terra ou lugar onde cada um nasce; a do direito é onde cada um é naturalizado pelas leis ou príncipes, e onde serve, e merece, e costuma habitar.
Quanto à pátria da origem, todos os homens somos do Céu, porque ali está, vive e reina o nosso pai celestial, que vai criando as almas e unindo-as a nossos corpos.

Quanto à segunda pátria, falando geralmente, todos homens somos da Terra; por isso dela falamos tão frequentemente. Neste sentido todos os filhos de Adão somos compatriotas, sem diferença do rei ao rústico.
Mas, além desta pátria do lugar comum, há outra do particular, que é a terra onde cada um nasceu. Quanto esta é mais pequena, tanto une mais os seus filhos, de sorte que parece o mesmo ser compatriotas que parentes, especialmente quando se acham fora dela. E parece-se este amor com a virtude da erva tápsia, da qual escreve Teofrasto que, metida na panela com a carne a cozer, de tal modo conglutina os pedaços dela que, para os tirar, é necessário quebrá-la.

Quanto à terceira pátria, é esta o lugar onde estamos naturalizados, por mercê da república, ou rescrito dos príncipes, ou habitação continua, de modo que Sto. António se chama de Pádua, não sendo senão de Lisboa, e S. Nicolau de Tolentino, sendo de Saint-Angel.
Tomando, porém, isto espiritualmente, onde cada um habita com o espírito e desejo, daí é natural.

domingo, março 26, 2006

Reflectindo


Reflexões obnóxias I

Alienação, é uma verdadeira doença psíquica-neurótica, não é só um termo utilizado nos discursos políticos.
Pois bem: a pior alienação que existe, não é a daqueles que estão encerrados dentro dos muros do Hospital Júlio de Matos.
É antes, esta que circula livremente nas placas de inteligência(?) deste computador e se manisfesta através de não sei quantos terminais.
Eu o digo, porque o percebo nos outros e me sinto atingido às vezes.

MONOLOGAMIA X


[ensaios]

Imaginação suficiente para alimentar um fígado cirrótico ou um poema desenhado na filosofia pre-socrática. palavras apenas, fluxos do sub-consciente irracionalmente controlado com falha no mecanismo da imaginação.
É tão fácil, tão simples ser poeta. Só por isso gostava bem de o ser.
Simples, descomplicado ou descomplexado. Simples a tal ponto de não querer desejar nunca exceder as minhas reais capacidades em todos os aspectos que não sei quais são - os aspectos.
Não consgio passar à análise disso. Incapaz de ordenar, dirigir o raciocínio a desvendar coisas que não sei se sei - preguiça de utilização de vias aptas, ou vias enferrujadas pelo desuso (dado à comodidade) ou ainda vias em que não vias nada, isto é, não estão lá, cá, não havia, não se fizeram nunca, mas podem fazer-se ou já deviam estar cá, como é.
Não adianta este caminho. Duvido apenas e ando afinal às voltas pelas vias que vão sempre dar a lado nenhum.

sexta-feira, março 24, 2006

o Impossível


Nós podemos viver alegremente,
Sem que venham, com fórmulas legais;
Unir as nossas mãos, eternamente,
As mãos sacerdotais.

Eu posso, com valor que nada teme,
Contigo preparar lautos festins,
E ajudar-te a fazer o leite-creme,
E os mélicos pudins.

Eu tudo posso dar-te, tudo, tudo,
Dar-te a vida o calor, dar-te cognac,
Hinos de amor, vestidos de veludo,
E botas de duraque.

Já vês, pois, que podemos viver juntos,
Nos mesmos aposentos confortáveis,
Comer dos mesmos bolos e presuntos,
E rir dos miseráveis.

E podemos até, noites amadas!
Dormir juntos dum modo galhofeiro,
Com as nossas cabeças repousadas,
No mesmo travesseiro.

Posso ser teu amigo, até a morte,
E sumamente amigo! Mas por lei,
Ligar a minha sorte à tua sorte,
Eu nunca poderei!

Eu posso amar-te como o Dante amou,
Seguir-te sempre como a luz ao raio,
Mas ir, contigo, a Igreja, isso não vou,
Lá nessa é que eu não caio!

(Capela Sra. de Belem)

quinta-feira, março 23, 2006

Waiting for Godot


Peça de teatro de Samuel Beckett, à volta da conversa de dois "manfios" que estão numa encruzilhada, encostados a uma árvore, à espera de um terceiro que nunca vai chegar.
Enquanto vão conversando, vão passando outros personagens vários e no fim ninguém vem a saber porque é que estão à espera, nem quem é Mr. Godot.

nossas ruas 9



excerto do Bolero do Coronel
...
Saíste do carro
Alisando a blusa
Espiei da janela
Rosto de aguarela
Coxa em semifusa
Soltei o travão
Voltei para casa
De chaves na mão
Sobrancelha em asa
Disse: fiz serão
Ao filho e à mulher
Repeti a fruta
Acabei a ceia
Larguei o talher
Estendi-me na cama
De ouvido à escuta
E perna cruzada
Que de olhos em chama
Só tinha na ideia
Teu corpo parado
Na berma da estrada
Eu que me comovo
Por tudo e por nada

(Lobo Antunes)

quarta-feira, março 22, 2006

Flores Maria


Passei por lá ontem e lá estava ela, a Maria, sentada no meio das flores do seu jardim, naquela verdejante encosta virada ao sul, contemplando as cores do ocaso que se aproxima, sombreando todo o relevo dos característicos montes e vales que se avistam ao longe, em terras do Oeste, desde o mar até à Serra do Montejunto.

monologamia IX


Porque não me exponho, porque não me ofereço eu às pessoas sem o cuidado (prévio) de ter bem coladinha, à vista, a etiqueta com indicações precisas ou preciosas para a preservação cuidada de mim.
Na verdade não tenho nada meu para vender, só posso dar aquilo que é possível ser concebido neste mundo.
Porque é que tomo consciência eu destas coisas. Porque não ignoro verdadeiramente tudo isto. Porque é que estou a perguntar se estou a pensar que estou a afirmar. Pergunto ou respondo. Uma e outra coisa nem uma nem outra.
Duvido. Não me reconheço no que os outros pensam de mim. Porque sou tão sensível a quem tem falta de carinho ou ternura e depois não consigo arranjar em mim o mundo necessário para satisfazer capazmente uma só pessoa dessas.
Porque me olho no espelho, não devo ter a imagem que sinto.

falta de tempo


Não tenho tempo!
Pois é, falta-me o tempo, mas não é falta de tempo, é a falta do tempo.
O problema é do mau tempo; o temp está chuvoso, cinzento, nem uma réstia de sol.
Sem o sol, não tenho sombra. Se não há sombra, não há tempo. Portanto, o tempo é o sol e o sol é o tempo.
Não há tempo sem sol. Mas também não há sol sem tempo bom, limpo, claro!
Pronto, está uma merda de tempo - chato - e assim fico sem tempo - chateado - e vou ficar por aqui antes que se acabe o tempo e o este blog se feche automaticamente devido a um "time out".

segunda-feira, março 20, 2006

a ferrugem


Não consigo escrever. Na cabeça tenho montes de imagens. Sobreposições de fotografias. Algumas que foram captadas e fixadas em filme negativo, reveladas e passadas ao papel. Outras que nunca deixaram de ser imagens reais, de coisas, de lugares, de olhares.
Uma imagem fugaz - o tempo. A transformção das coisas físicas que é levada a cabo por forças invisíveis, essencialmente químicas.

monologamia VIII


Incapaz de me oferecer ao diálogo, a uma conversa qualquer, banal, útil ou simplesmente agradável com quem quer que seja eu me sinto mal. Mas tenho por conclusão que sou passível (ou possível) de me apresentar, mesmo com todas as defesas (que não tenho por uso normal) abertas. Mas como se dará esse milagre; também não se dão milagres, nem se vendem, sequer.
Mas como me fecho dentro de pensamentos só para mim, de raciocínios turvos, porquê este complexo de inferioridade disfarçado numa timidez que ninguém pressente e só eu sinto.

domingo, março 19, 2006

amanhecer IX


Sábado de manhã - no Vale de Colares,
chega finalmente o Sol que vem transformar as gotas de chuva em efémeros cristais cintilantes.

sexta-feira, março 17, 2006

monologamia VII


[ensaios VII]

Quando choro, fico bem comigo mesmo, isso é verdade, mas depois não resolve nada até que se vai acumulando todo o não sei quê (rancor, amargura, ódio?) que em amalgamado de dúvidas é como um montão de tremoços que cai dentro do estômago.
Faz-me ficar parado, nervoso por todo o lado, sem vontade de ter vontade (a minha vontade era matar-te, não tanto, mas de qualquer modo sinto que vontade não é palavra do meu agrado, parece mesmo que não soa muito mal - aversão) - verdade; sim é e não valia a pena dizê-lo àparte.

vou a caminho


Azenhas do Mar em azulejos.
Quem passa de automóvel não consegue ver.
Por isso mesmo, só quando comecei a ciclofotografar é que fiz esta imagem.

embarcar


(Praia das Maçãs)

Sim, foi que nem um temporal
Foi um vaso de cristal
Que partiu dentro de mim
Ou quem sabe os ventos
Pondo fogo numa embarcação
Os quatro elementos
Num momento de paixão

Deus, eu pensei que fosse Deus
E que os mares fossem meus
Como pensam os ingleses
Mel, eu pensei que fosse mel
E bebi da vida
Como bebe um marinheiro de partida, mel
Meu, eu julguei que fosse meu
O calor do corpo teu
Que incendeia meu corpo há meses
Ar, como eu precisava amar
E antes mesmo do galo cantar
Eu te neguei três vezes
Cais, ficou tão pequeno o cais
Te perdi de vista para nunca mais

Mais, mais que a vida em minha mão
Mais que jura de cristão
Mais que a pedra desse cais
Eu te dei certeza
Da certeza do meu coração
Mas a natureza vira a mesa da razão

(Francis Hime)

quinta-feira, março 16, 2006

monologamia VI


[ensaios VI]

Melhor, porque sofro com as dúvidas de mim mesmo. orque penso quie sou mais estúpido do que aquilo que penso. E porque me desvio em raciocínios lógicos e formais de pensar que se fosse tão estúpido assim, não era capaz de ter chegado nunca a reconhecer isso.
Ou terá sido por intuição. Qual a diferença, se se pensa. E porque penso demais.
Mas não se pode deixar de pensar e voltar atrás, para perguntar porquê esta incapacidade de manifestar sinceramente estados de alma e razão para com os outros e me sentir bem comigo mesmo, porque o fundamental de tudo era sentir-me em paz comigo mesmo.

o Pastor Jano


(Largo da Anunciada - Lisboa)

Dizem que havia um pastor
antre Tejo e Odiana,
que era perdido de amor
per ua moça Joana.
Joana patas guardava
pela ribeira do Tejo,
seu pai acerca morava
e o pastor de Alentejo
era, e Jano se chamava.

Quando as fomes grandes foram
que Alentejo foi perdido,
da aldeia que chamam o Torrão
foi este pastor fugido.
Levava um pouco de gado,
que lhe ficou doutro muito
que lhe morreu de cansado;
que Alentejo era enxuito
de água e mui seco de prado.

quarta-feira, março 15, 2006

para o Quim


Encontrei uma Roda de tirar água ao poço.
E ainda funciona, aqui em Fontanelas, no Poço do Rossio.

portas do tempo III


Há portas só para entrar;
e outras só para sair;
também as há para entrar e sair;
e ainda umas que nem para sair nem entrar;
e mais aquelas onde a gente entra sem saber se vai poder sair, ou sem saber o que vai lá dentro;
é verdade, há portas que a gente abre... e depois não consegue fechar, por não poder, ou quiça, até por não querer;
quando saímos a porta de casa, dizemos - até logo! Até amanhã, quem sabe, até mais ver ou até nunca mais; vou voltar, até sempre, é igual a até nunca!
O que será pior:
as portas que se fecham atrás de nós ou as que se fecham à nossa frente!??

terça-feira, março 14, 2006

Janela para ver (9)


Para mim, as portas e janelas, representam na arquitectura, umas o tempo e outras o espaço.
Sobre as Portas tenho muito para dizer, da forma como elas controlam o tempo, mas aqui, agora quero abrir uma série de janelas para um espaço novo de divulgação, dissertação, com poesia, às vezes triste outras com alegria, mas sem tempo, fora do tempo e sempre informal.
Pode-se começar por dizer, que "os olhos são as janelas da alma"- e aqui temos o mote para um longo discurso;
as janelas estão quase sempre fechadas; as janelas abrem, para quem quer espreitar por elas, infinitos diferentes horizontes, espaços, exteriores ou interiores;
é preciso não esquecer que "as janelas são os olhos da casa" - e aqui está a mesma ideia, agora vista de outra maneira, ou de outro lado, ou... por outra janela.

Chafariz do Cardeal


Cardeal Patriarca - é o que diz na lápide.
Pintéus é o nome da terra, situada numa encosta soalheira de onde escorriam, nos tempos da realeza, muitas águas de nascente que alimentavam o maior afluente do Rio Trancão.
Em Fontanelas há os Pinéus e aqui próximo de Loures e Bucelas há os Pintéus, lugar com belas vistas e um Palácio Real, com um Brasão bem grande, digno de se ver.

segunda-feira, março 13, 2006

portas do tempo II


Poeminha de louvor ao "strip-tease"

Eu sou do tempo em que a mulher
Mostrar o tornozelo
Era um apelo!
Depois, já rapazinho, vi as primeiras pernas
De mulher
Sem saia;
Mas foi na praia!

A moda avança
A saia sobe mais
Mostra os joelhos
Infernais!

As fazendas
Com os anos
Se fazem mais leves
E surgem figurinhas
Em roupas transparentes
Pelas ruas:
Quase nuas.
E a mania do esporte
Trouxe o short.
O short amigo
Que trouxe consigo
O maiô de duas peças.
E logo, de audácia em audácia,
A natureza ganhando terreno
Sugeriu o biquíni,
O maiô de pequeno ficando mais pequeno
Não se sabendo mais
Até onde um corpo branco
Pode ficar moreno.

Deus,
A graça é imerecida,
Mas dai-me ainda
Uns aninhos de vida!

(Millôr Fernandes)

monologamia V


[ensaios V]

Em 1º lugar, temos o tempo por nossa conta - podemos adiantá-lo, atrasá-lo ou simplesmente, o mais natural de todo, deixá-lo correr por si mesmo, não interferir intencionalmente (como se fosse possível) - como? Não interessa agora isso.
Adiantemo-nos: O quê, seria um ponto ou uma vírgula? Também não importa já, deixemos isso. Agora bem.
Em 2º lugar e dentro e fora do tempo teremos todo o espaço necessário a qualquer forma de existência. Mas porque é que havemos de nos preocupar a pensar nisto, se há coisas bem mais directamente importantes para Revelar, como por exemplo porque é que sofro a sós comoigo mesmo e para dentro todos os passos de um dia-a-dia tragado aos soluços.

domingo, março 12, 2006

portas do tempo I


[Colares - Sintra]

O tempo, não mora aqui.
O tempo infinito passou por aqui, não parou.
Ele não pára, tem sempre pressa o tempo nunca tem tempo para parar um pouco e sossegar.
Avança sempre, não recua, não vacila, nem uma só esitação.
Monotonia cadenciada.
"Não há tempo a perder" - não se consegue perder o tempo não se perde, encontra-se e gasta-se, consome-se.
"Só para ganhar tempo" - ganha-se dinheiro (e gasta-se), ganham-se amizades, ganham-se cabelos brancos, o tempo não se ganha, é de borla, não se paga, ele está aí por todo o lado, sempre disponível para ser utilizado, usado, gozado, não acaba nunca, desde tempos imemoriais até... sabe-se lá quando!??

(acreditem, foi isto que eu pensei, quando vi esta porta)

monologamia IV


[ensaios IV]

Confessa-te lá, mas aqui só para nós, vá diz,não receies, por mim não te envergonhes, não digo a ninguém; minto, digo, isso digo, vou dizer para ti, de mim, sim senhor, aqui já não há lugar para mais ninguém, não há fuga possível, já é tempo, faz-se tarde, e depois é de mais.
Voltamos a encontrar-nos e vamos desta vez aproveitar decerto a última vez e oportunidade de conseguir comunicar sem reservas, sem esconder nada do que parece mal.

o Pudor


Todas as noites ela me cingia
Nos braços, com brandura gasalhosa;
Todas as noites eu adormecia,
Sentindo-a desleixada e languorosa.

Todas as noites uma fantasia
Lhe emanava da fronte imaginosa;
Todas as noites tinha uma mania
Aquela concepção vertiginosa.

Agora, há quase um mês, modernamente,
Ela tinha um furor dos mais soturnos,
Furor original, impertinente...

Todas as noites ela, ah!, sordidez!
Descalçava-me as botas, os coturnos,
E fazia-me cócegas nos pés...

(Cesário Verde)

sexta-feira, março 10, 2006

monologamia III


[ensaios III]

Das coisas que mais me afligem - e logo são várias - esta é atrozmente difícil de ultrapassar, porque afinal eu penso nisto e portanto não posso dizer que (estou) nasci idiota;
mas fiquei não sei porquê sem a capacidade que tanto admiro, invejo, adoro até, nos outros, da facilidade com que, por mecanismo inato ou adquirido imperceptivelmente ou por treino, conseguem colocar a imaginação ao serviço da razão.
Quando sob pressão (ou depressão) do sentimento.

amontoado IV


[Lisboa - elevador do Lavra]

poema do abandono em si (IV)

Cair no abismo do esquecimento verdadeiro
ou permanecer intermitentemente
apenas um de entre todos.

Nossas Ruas 8


E deve ser uma gente esquisita, uma vez que Pineus, não tenho a certeza mas acho que é nome de uma praga que ataca os Pinheiros.

quinta-feira, março 09, 2006

a primeira


Abriram hoje, no meu jardim, os primeiros cálices de Frésia.
Quando estas flores começam a impregnar o ar com o seu intenso aroma - autêntico perfume - é sinal que está a chegar o fim do Inverno.
Nos canteiros do meu jardim, elas são mais ou menos silvestres, nascem expontâneamente desde que, há alguns anos, eu recolhi alguns bolbos que encontrei a germinar na areia do pinhal da várzea. São cada vez mais e em muitas cores e tons naturais possíveis (amarelos, azuis, laranja, vermelhos, branco).
Antes disso, eu nem sabia que existiam tais flores.

amontoado III


[elevador do Lavra - Lisboa]

poema do abandono em si (III)

Estampado no colmo da minha imperfeição está o âmbito do meu terminar e recomeçar, está a ampulheta vertente insaturada no perpetuosismo do ser porquê... do ser nada porquê, porque não se é só por ser, ainda mais renovado imperfeitamente na compreensão de tudo, todo o resto, compreendo eu sei; mas não sei nada do tudo? que é isso de saber tudo de alguma coisa? que é isso de saber de tudo alguma coisa? pergunto porque não me dizem porque escrevo? como pisas o chão que se te sobrepõe? como te debruças sobre o que não existe - onde vai a abstracção subtrair o seu móbil?
para que vais abrir o segredo do ser,
- para do nada fazer ser?
- ou para do ser fazer nada!!!

Janela Mar e Ceu


III
Já a vista, pouco e pouco, se desterra
Daqueles pátrios montes, que ficavam;
Ficava o caro Tejo e a fresca serra
De Sintra, e nela os olhos se alongavam;
Ficava-nos também na amada terra
O coração, que as mágoas lá deixavam;
E, já despois que toda se escondeu,
Não vimos mais, enfim, que mar e céu.

(Lusíadas - Canto V)

quarta-feira, março 08, 2006

Poema Elfo


-
Nelde Cormar Eldatárin nu Tarmenel,
Otso Herunaucoin hrótassen ondova,
Nerte Fírimoin marte nurunen,
Er i More Herun mormahalmas hárala
Morinóreva mí arda, már i fuinion.
Er Corma ilyar turien ar tuvien te,
Er Corma tucien ar móresse nutien te
Morinóreva mí arda, már i fuinion.

(J.R. Tolkien)

Mare e Cielo


III
A poco a poco andava fuggendo
dietro di noi la visione delle patrie montagne:
restavano addietro il caro Tago e la fresca giogaia
di Sintra, su cui gli occhi si attardavano.
E restava addietro nella amata terra
il nostro cuore, che la nostalgia là tratteneva.
E quando infine quella visione fu tutta svanita,
non vedemmo altro che mare e cielo.

(Lusíadas - Canto V)

Nossas Ruas 5


[monólogo da menina]
-
Menina e moça me levaram de casa de minha mãi para muito longe.
Que causa fosse então daquela minha levada, era ainda piquena, não a soube.
Agora não lhe ponho outra, senão que parece que já então havia de ser o que despois foi.
Vivi ali tanto tempo quanto foi necessário para não poder viver em outra parte.
Muito contente fui em aquela terra, mas, cuitada de mim, que em breve espaço se mudou tudo aquilo que em longo tempo se buscou e para longo tempo se buscava.
Grande desaventura foi a que me fez ser triste ou, per aventura, a que me fez ser leda.
Depois que eu vi tantas cousas trocadas por outras, e o prazer feito mágoa maior, a tanta tristeza cheguei que mais me pesava do bem que tive, que do mal que tinha.
...

terça-feira, março 07, 2006

Janela a chegar


Eis-me chegado sem desvios ao último
não tão triste como o primeiro mas
mais longo que o segundo
por causa da ansiedade dos últimos dias
de espera só mais um sábado
aguentar só mais um domingo
Finalmente vais chegar
segunda-feira de Setembro
acabou-se Agosto
quente de férias
para toda a gente
menos para mim
que não gosto
de Agosto
porque sou diferente!

monologamia II


[ensaios II]

Como posso ser bruto, bestial, corrupto perante tais atitudes e sentimentos porque não sigo os vestígios da cauda do cometa que ainda vai iluminado um caminho que na verdade - o que é? - eu desejava sempre percorrer sem sair do mesmo sítio.
Não, não era bem assim.
Sem sair do mesmo sítio, já eu consigo estar em todo o lado ao mesmo tempo, (ou não) mas sempre perfeitamente incompleto, inacabado e então impotente.
Impotente no respeitante à criação, ao abandono dos sentidos no racional, a emoção ao serviço (da razão) de quem, no fim?

Amanhecer DLII

Museu dos Terceiros (Ponte de Lima) Um museu de Arte Sacra do norte do País, instalado no extinto Convento de Santo António dos Capuchos...