Blog em remodelação

sábado, janeiro 24, 2009

Amanhecer CLIV


LEGENDA

Como quem sente
na legenda do presente
o fim duma história breve,
vou vivendo um sonho intacto
num pesadelo crescente,
uma luz fecunda e leve
nos olhos pardos dum gato.


(Fernanda Botelho, 1951)

1 comentário:

  1. Acerca de gatos

    Em abril chegam os gatos: à frente
    o mais antigo, eu tinha
    dez anos ou nem isso,
    um pequeno tigre que nunca se habituou
    às areias do caixote, mas foi quem
    primeiro me tomou o coração de assalto.
    Veio depois, já em Coimbra, uma gata
    que não parava em casa: fornicava
    e paria no pinhal, não lhe tive
    afeição que durasse, nem ela a merecia,
    de tão puta. Só muitos anos
    depois entrou em casa, para ser
    senhora dela, o pequeno persa
    azul. A beleza vira-nos a alma
    do avesso e vai-se embora.
    Por isso, quem me lambe a ferida
    aberta que me deixou a sua morte
    é agora uma gatita rafeira e negra
    com três ou quatro borradelas de cal
    na barriga. É ao sol dos seus olhos
    que talvez aqueça as mãos, e partilhe
    a leitura do Público ao domingo.

    Eugénio de Andrade

    Outro que faz parte dos meus eleitos.
    Beijo
    Maria dos Alcatruzes

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