AMARANTE
É tarde, já devia ter acordado há mais tempo, mas... acontece-me, por vezes, ao despertar, não sei o que sinto, só sei que não quero sentir - sentir que não me apetece regressar à vida. Fico deitado a pensar que não vale a pena erguer o esqueleto para retomar o dia-a-dia.
É então que o espírito - ou lá o que é, não sei, o que se chama ao ser ou à coisa imaterial que vive agarrado ao meu corpo físico - se levanta, sai das fronteiras do quarto e vai por esse mundo fora...
voando, nunca, não me recordo de tal;
navegando, não, também não me lembro;
sempre percorrendo caminhos terrestres de cidades, aldeias, ruas, praças e avenidas, campos abertos ou íngremes encostas, abruptas escarpas rochosas, agrestes; meandros de rios, margens floridas, planos de lezíria e verdes planaltos; castelos, igrejas, pontes e fontes; monumentos, quase sempre em Portugal; raramente saio fora do meu País durante estas viagens espirituais;
acorrem amiúde vividas imagens de França; também de Itália, estas muito menos - poucas mas boas.
Essa coisa que desencadeia a projecção num ecrã de cinema interior, de cenas ou fotografias, retiradas do emaranhado arquivo da mina memória, é uma actividade psíquica geradora de emoções contraditórias:
- um grande prazer, a sensação de liberdade sem limites, o poder imenso, sobre-humano, de olhar o mundo, de fora;
- tudo isto, no final aporta ao nível da consciência, uma angústia insidiosa: "existe em mim um desejo latente de partir!"





