quarta-feira, maio 09, 2007

a Fonte 94

(Sobreiro, Mafra)

REDONDILHA

Descalça vai para a fonte,
Leanor pela verdura;
Vai fermosa, e não segura.

A talha leva pedrada,
Pucarinho de feição,
Saia de cor de limão,
Beatilha soqueixada;
Cantando de madrugada,
Pisa as flores na verdura:
Vai fermosa, e não segura.

Leva na mão a rodilha,
Feita da sua toalha;
Com üa sustenta a talha,
Ergue com outra a fraldilha;
Mostra os pés por maravilha,
Que a neve deixam escura:
Vai fermosa, e não segura.

(Rodrigues Lobo, 1649)

o Calceteiro



Depois de uns dias de aguaceiros,
Vibra uma imensa claridade crua,
De cócoras, em linha, os calceteiros,
Com lentidão, terrosos e grosseiros,
Calçam de lado a lado a longa rua.

E os rapagões, morosos, duros, braços,
Cuja coluna nunca se endireita,
Partem penedos. Cruzam-se estilhaços.
Pesam enormemente os grossos maços,
Com que outros batem a calçada feita.


(Cesário Verde, 1875)

terça-feira, maio 08, 2007

a Direita


NA MÃO DE DEUS

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!

(Antero de Quental)

Vista daqui 21


Qual é a coisa, que "quanto mais alto está, melhor se lhe chega?"

Era uma das perguntas (clássicas adivinhas) que o velho O'Neil Pedrosa fazia, para testar os meus conhecimentos, quando eu andava na Primeira Classe.
- "Esta não vem nos livros", dizia ele.

Desde então, sempre que vejo um poço, lembro-me da resposta e da sabedoria daquele velho cliente da Parreirinha da Porcalhota.

segunda-feira, maio 07, 2007

o Pato


Onde está o Pato?
Quando tirei a fotografia, ele estava aqui.

Ao sair da exposição de fotografia "INGENUIDADES" na Galeria de Exposições Temporárias da Fundação Calouste Gulbenkian, o pato nadava por entre os nenúfares deste lago do Jardim da Fundação.

Tirei-lhe uma fotografia para postar, mas agora, não consigo ver onde ele está - é uma fotografia sem Pato. Mas isso, não impede de recordar Vinícius de Moraes:

O Pato

Lá vem o Pato
Pata aqui, pata acolá
La vem o Pato
Para ver o que é que há.

O Pato pateta
Pintou o caneco
Surrou a galinha
Bateu no marreco
Pulou do poleiro

No pé do cavalo
Levou um coice
Criou um galo
Comeu um pedaço
De jenipapo
Ficou engasgado
Com dor no papo

Caiu no poço
Quebrou a tigela
Tantas fez o moço
Que foi pra panela.

a Fonte 93


em Almargem do Bispo.

A água fresca nasce no monte
Vai caminhando alegremente
Para chegar à bica da fonte
E matar a sede a muita gente.


(diz o Povo)

domingo, maio 06, 2007

Maternidade


Uma criação do "barrista" José Franco.

Realço a extraordinária expressão de TERNURA, AFEIÇÃO, MÃE FILHO MÃE, que o artista, conseguiu imprimir nesta pequena escultura,

que se encontra na rua, mais ou menos esquecida de todos, (ao sabor dos elementos - ao sol, ao frio, ao vento, à chuva) num nicho da parede exterior da sua casa/oficina no Sobreiro - Mafra.

sábado, maio 05, 2007

Amanhecer LXVIII


Já me disseram - "Ó pazinho, vai morrer longe!"
Calculo, como deve ser difícil (especialmente para um português), morrer longe, fora do seu - nosso - país. Morrer lá fora, com saudades da santa terrinha.

Talvez, um dia, quem sabe, consiga mandar-me daqui para fora e ficar por lá esquecido da minha cidade e do seu rio, Lisboa e o Tejo;

insensível às saudades do brilho do sol e da brisa do mar;

incapaz de recordar as cores das casas nas manhãs claras;

o azul do ceu mais azul, os reflexos no mar das cores no entardecer...


É tanta coisa, tanta... mas por agora vou apenas "amanhecer longe".
Só por hoje, um Sábado, longe do Vale da Ribeira de Colares, ou Rio das Maçãs.
até logo mais..

a Faina


A faina já não é o que era
Os barcos estão parados
Continuam p’rali à espera
De um patrão e contratados

Com as botas p’los joelhos
Vão lançar ao largo no mar
As redes, bóias e aparelhos
Para peixe e polvos apanhar

Fiapos de algas verdes coladas
Na tez morena, tisnada do sol
E curtida pelas brisas salgadas,
Brilham na noite à luz do farol.

Se a chuva forte cai a rodos
Fustigando de lado as vidraças
Ai, o perigo é igual para todos,
Não sentem diferença de raças.

A bordo todos são como irmãos
Do mais velho até o mais moço
No mar lavam a cara e as mãos
E também as panelas do almoço.

(Ericeira, Maio 2007)

sexta-feira, maio 04, 2007

a Fonte 92


A água é fonte da vida
A vida é fruto do amor
Se uma estiver poluída
A outra padece de dor

(PopularEu)

Autoretrato 17


Estou quase lá no fundo;
sinto-me afundar, irremediavelmente;
não há retorno, mas por enquanto ainda consigo respirar;
se o meu pesar não aumentar, talvez me mantenha assim, meio a flutuar;
se o peso das minhas penas aumentar, então aí estou lixado, vou-me afogar;


bem, então o melhor é, voltar às aulas de natação na piscina para estar em forma - prefiro afogar-me a nadar no mar revolto a ficar quieto num marasmo, vendo a água subir lenta e inexoravelmente por mim acima.

Amanhecer DCXL

Praia das Maçãs, Sintra Por vezes, parece que é o fim, mas entretanto, ao despertar, abrimos os olhos e... a vida continua!