sexta-feira, março 30, 2007

O Arcanjo


(na Igreja da Sra. da Encarnação, Chiado)

Com São Miguel Arcanjo,
o Anjo custódio de Portugal,
fiquem bem; enquanto Eu,
vou de férias, ver se arranjo
o remédio para tanto mal,
que na vida me aconteceu!
"Ó que tédio, este marmanjo"!
Podem dizer, porque é igual,
tanto faz; "que culpa tenho eu,
do azar do rapaz; mas afinal,
que mosca é que lhe mordeu?

quinta-feira, março 29, 2007

o Metro


Perto tinha de si
a gente exausta
e livremente
contemplava
tantos rostos,
tanto desespero.

Nas mulheres do campo
batia o seu coração,
para ajudá-las na saída;
e pelos olhos dos namorados
pedia licença
de passar
como um Inca pelos rios.

Era moço de recados,
servente, outra vez criança
num comboio,
canceroso
que vai para o hospital,
o aleijado que estende
ali a mão,
soldado que se despede,
emigrante que regressa
mais humilhado.

E gota infortunada
ou lágrima
escondida
ao lado do seu povo.

("Metro de Lisboa", António Osório)

Marias de Pessoa


Maria (55)
Maria, se eu te chamar,
Maria, vem cá dizer
Que não podes cá chegar.
Assim te consigo ver.

Maria (126)
Olha o teu leque esquecido!
Olha o teu cabelo solto!
Maria, toma sentido!
Senão, não volto!

Maria (134)
És Maria da Piedade,
Pois te chamaram assim.
Sê lá Maria à vontade,
Mas tem piedade de mim.

Maria (135)
Tu és Maria da Graça,
Mas a que graça é que vem
Ser essa graça a desgraça,
De quem a graça não tem?

Maria (180)
Tu és Maria das Dores,
Tratam-te só por Maria.
Está bem, porque dás as dores
A quem quer que em ti se fia.

Maria (302)
"Mau, Maria!" - tu disseste
Quando a trança te caía.
Qual "Mau, Maria", Maria!
"Má, Maria!" "Má, Maria!"

("Quadras ao Gosto Popular",Fernando Pessoa)

quarta-feira, março 28, 2007

a Fonte 81


Espectacular, a grande Fonte Luminosa,
Em noites de Verão, uma vista gostosa.

O chafariz de arquitectura monumental,
Que não foi obra do Marquês de Pombal,
É recente. Uma herança do Estado Novo,
Oferecida a Lisboa e ao seu pacato povo.

Cascata de luz e cor para todos admirar.
Mandou construir o Dr. Oliveira Salazar
Pelo então ministro, Engº Duarte Pacheco.
Foi inaugurada em 1940. Hoje está a seco.

Loas de 1902


Nossa Senhora do Cabo Espichel

A Senhora do Cabo! - "Mas aonde
Existe o cabo de que ella é senhora?"
Eis a pergunta que no labio afflora,
Eis o mysterio que se nos esconde!

-"É o cabo da vida soffredora!"
A voz piedosa e anonyma responde...
E só a entende o espírito que sonde
O oceano da fé consoladora...

A boa Mãe do Cabo! Quando a gente
Põe no Menino que ella tem nos braços
Toda a esperança da alma anciosa e crente,

Reboam harmonias nos espaços,
Dobra-se o cabo resignadamente,
Mudam-se em lirios os crueis sargaços!

(durante o Círio de Sintra, 1902)

terça-feira, março 27, 2007

Vista daqui 14



Parecem verdadeiras estalactites de verdura,
Os cactos pendentes dos vasos desta varanda.
Encontrei ao subir umas escadinhas da saudade,
Durante um passeio a fotografar a minha cidade.

a Fonte 80


Mais uma,
plantada no Jardim e Miradouro do Torel.
É uma espécie de monolito, igual a quinhentos outros,
que se encontram pelas ruas, praças e parques de Lisboa,
foram quase todos colocados, no tempo da "outra senhora".

Quando o povo era obrigado a ser feliz,
Ao passear em segurança, com liberdade
Pelas ruas e jardins da sua linda cidade.
Podia matar a sede no pequeno chafariz.


segunda-feira, março 26, 2007

Queria ver


Marcha para um dia de sol

Eu quero ver um dia
Numa só canção
O pobre e rico
Andando mão e mão
Que nada falte
Que nada sobre
O pão do rico
E o pão do pobre

Eu quero ver um dia
Todos trabalhar
E ao fim do dia
Ter onde voltar
E ter amor
Eu quero ver a paz
Tristeza nunca mais
Eu quero tanto um dia
O pobre ver sem frio
E o rico com coração

(1964, Chico Buarque)

Vista daqui 13


Há 250 anos que esta janela está assim,
Toda escancarada, com vista para o sul.
Por ela passam invernos de vento e de chuva.
Já não oferece protecção contra o calor e o frio.
Quer seja dia ou noite, à luz do sol ou da lua,
O tempo é igual, do lado de fora ou lá dentro,
No que resta da gótica igreja do Convento,
Que foi casa de Carmelitas, no Carmo em Lisboa.

domingo, março 25, 2007

a Fonte 79


Em Sintra - a Fonte da Pipa.
A rainha D. Maria I, em 1787, determinou a restituição da sua água ao povo que dela tinha sido privado, "livrando-o da opressam que lhe causava a falta de agoa", desviada pelo Marquês de Pombal para as suas propriedades que, topograficamente, entalavam o fontanário.

sábado, março 24, 2007

Amanhecer LXIII


Nesta manhã de Sábado no vale da Ribeira de Colares,
o tempo parece mesmo justificar o rifão popular.

Dizem em Portugal:
Março, marçagão, manhãs de Inverno, tardes Verão.

Dizem em França:
Si Mars vient en courroux, il deviendra trop doux.

Dizem na Irlanda:
March comes in like a lion, goes out like a lamb.

Noite Parada

Retido em Casa - dia 29 O nevoeiro cerrado adensa o silêncio e as sombras da noite. Não há movimento na rua - está toda a gente fechad...