quarta-feira, novembro 08, 2006

A fonte 31



(Torrão do Alentejo - à beira do Rio Xarrama)

Outra margem

E com um búzio nos olhos claros
Vinham do cais, da outra margem
Vinham do campo e da cidade
Qual a canção? Qual a viagem?

Vinham p’rá escola. Que desejavam?
De face suja, iluminada?
Traziam sonhos e pesadelos.
Eram a noite e a madrugada.

Vinham sozinhos com o seu destino.
Ali chegavam. Ali estavam.
Eram já velhos? Eram meninos?
Vinham p’rá escola. O que esperavam?

Vinham de longe. Vinham sozinhos.
Lá da planície. Lá da cidade.
Das casas pobres. Dos bairros tristes.
Vinham p’rá escola: a novidade.

E com uma estrela na mão direita
E os olhos grandes e voz macia
Ali chegaram para aprender
O sonho, a vida, a poesia.

(Poesia: Maria Rosa Colaço, natural do Torrão)
(Música: Os Trovante)

o desvairo



(memória, Torrão do Alentejo)

Aqui nasceu Bernardim Ribeiro, iniciador da poesia bucólica (campestre, pastoril) em Portugal.

Toda a gente conhece dele, a Novela que começa com "Menina e moça me levaram de casa de minha mãe para muito longe..".

O que nem toda a gente sabe, eu não sabia, li algures, que o homem se havia passado dos carretos e dizem que, morreu doido.


Dá para perceber, no excerto do poema, que as coisas não andavam lá muito bem dentro da cabeça do poeta.
..
Dentro de meu pensamento
há tanta contrariedade,
que sento contra o que sento
vontade e contra vontade.
Estou em tanto desvairo,
que não me entendo comigo.
Donde esperarei repairo?
Que vejo grande o perigo
e muito mor o contrairo.

(Éclogas de Bernardim)

terça-feira, novembro 07, 2006

a Fonte XXX



O senhor extraterrestre

Vou contar-vos um história
que não me sai da memória,
foi p’ra mim uma vitória
nesta era espacial.
Noutro dia estremeci
quando abri a porta e vi
um grandessíssimo ovni
pousado no meu quintal.

Fui logo bater à porta,
veio uma figura torta,
eu disse: “se não se importa
poderia ir-se embora,
tenho esta roupa a secar
e ainda se vai sujar
se essa coisa aí ficar
a deitar fumo p’ra fora”.

E o senhor extraterrestre
um pouco atrapalhado,
quis falar mas disse pi,
estava mal sintonizado.
Mexeu lá o botãozinho
e pôde contar-me então
que tinha sido multado
por o terem apanhado
sem carta de condução.

Mas já que está aí de pé
venha tomar um café,
faz-me pena, pois você
nem tem cara de ser mau
e eu queria saber também
se na terra donde vem
não conhece lá ninguém
que me arranje bacalhau.

E o senhor extraterrestre
um pouco atrapalhado,
quis falar mas disse pi,
estava mal sintonizado.
Mexeu lá no botãozinho,
disse para me pôr a pau,
pois na terra donde vinha
nem há cheiro de sardinha
quanto mais de bacalhau.

Já está de chaves na mão?
Vai voltar p’ro avião?
Espere, que já ali estão
umas sandes p’ra viagem
e vista também aquela
camisinha de flanela
p’ra quando abrir a janela
não se constipar co’a aragem.

E o senhor extraterrestre
viu-se um pouco atrapalhado,
quis falar mas disse pi,
estava mal sintonizado.
Mexeu lá no botãozinho
só p’ra dizer: Deus lhe pague.
Eu dei-lhe um copo de vinho
e lá foi no seu caminho
que era um pouco em ziguezague.

(Excerto do poema de Carlos Paião,
cantado por Amália Rodrigues, 1982)

segunda-feira, novembro 06, 2006

a Fonte 29



Cá em baixo, no vale, onde está uma bela fonte
Que há muito deixou de matar a sede ao povo,
Avista-se o Castelo bem lá no cimo do monte:
O monte maior, a que chamam Montemor-o-Novo.

domingo, novembro 05, 2006

E-mail



O meu endereço electrónico - para quem quiser mandar coisas.

Nha Maria


(Castelo de Monsaraz)

Pela saudade, um dia fui levada
àquela casinhola ao pé da estrada,
para rever a velha Nha Maria
- uma boa e simpática roceira,
que foi, outrora nossa lavadeira
e que eu há longos anos já não via...

Enternecida, a pobre da velhinha
fez-me sentar num banco da cozinha,
e ofereceu-me um "gole de café"...
Um caldeirão, no fogo, fumegava;
alí por perto, pelo chão ciscava
um casal de galinhas garnisé...

Na quietude gostosa lá da roça,
eu, entretida com a conversa nossa,
nem percebia as horas que passavam !
Em seu falar, interessante e rude,
queixou-se-me da vida e da saúde
que, pouco a pouco, os anos lhe roubavam...

Depois, contou-me casos do passado;
do seu remoto e trágico noivado
com o Zé Florencio, um "cabra" valentão...
Mas... eis que pára e funga. E levantando,
e a panela depressa destampando...
"Nossa Virge"! queimô tudo o fejão!!!

(Berta Homem de Mello)

sexta-feira, novembro 03, 2006

a Fonte 28



Um chafariz "pelo povo" para o povo do Escoural.

E foi aqui mesmo, que no dia 28 de Outubro passado,
um Fotociclista da Porcalhota, encostou a bicicleta,
para matar a sede depois de enfardar uma tachada
de Borrego Ensopado com saboroso pão do Alentejo,
mais umas azeitonas britadas e tinto de Monsaraz.

Banda Euterpe


BANDA EUTERPE CACHOEIRENSE

(... é só mais esta!)
(a tocar desde 25-10-1856, em Cachoeira do Campo, Minas Gerais, Brasil)


Cidade do quartel da Cavalaria onde trabalhava Joaquim Xavier - O Tiradentes.

Região onde os Bandeirantes descobriram as mais importantes Minas de Ouro.

O acesso a estas minas, deu lugar a um conflito de armado, entre mineiros Paulistas, por um lado, e comerciantes Portugueses e Brasileiros e mineiros de outras regiões por outro, a que se chamou a Guerra dos Emboabas.

Buabas, galinhas calçudas em dialecto tupi-guarani, aves com penas até os pés, em referência às calças e botas dos estrangeiros.

quinta-feira, novembro 02, 2006

Dia dos Mortos


(Maré vazia no tejo - Lisboa oriental)

Poème sur le désastre de Lisbonne

O malheureux mortels! ô terre déplorable!
O de tous les mortels assemblage effroyable!
D'inutiles douleurs éternel entretien!
Philosophes trompés qui criez: "Tout est bien"
Accourez, contemplez ces ruines affreuses
Ces débris, ces lambeaux, ces cendres malheureuses,
Ces femmes, ces enfants l'un sur l'autre entassés,
Sous ces marbres rompus ces membres dispersés;

Cent mille infortunés que la terre dévore,
Qui, sanglants, déchirés, et palpitants encore,
Enterrés sous leurs toits, terminent sans secours
Dans l'horreur des tourments leurs lamentables jours!
Aux cris demi-formés de leurs voix expirantes,
Au spectacle effrayant de leurs cendres fumantes,
Direz-vous: "C'est l'effet des éternelles lois
Qui d'un Dieu libre et bon nécessitent le choix"?

Direz-vous, en voyant cet amas de victimes:
"Dieu s'est vengé, leur mort est le prix de leurs crimes"?
Quel crime, quelle faute ont commis ces enfants
Sur le sein maternel écrasés et sanglants?
Lisbonne, qui n'est plus, eut-elle plus de vices
Que Londres, que Paris, plongés dans les délices?
Lisbonne est abîmée, et l'on danse à Paris.
..

(Voltaire, 1756)

quarta-feira, novembro 01, 2006

Dia de Finados


(luzes e um cipreste - jardim de Queluz)

Poema de Finados

Amanhã que é dia dos mortos
Vai ao cemitério. Vai
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.

Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
O filho tem mais precisão.

O que resta de mim na vida
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
E em verdade estou morto ali.

(Manuel Bandeira)

Noite Africana

Ilha da Boa Vista, Cabo Verde Cai a noite no barlavento do arquipélago cabo-verdiano.