
Lá vou eu a bordo do Marvila
a "fazer-me ao mar", como
dizem os avieiros do Tejo.
Este rio que a gente vê hoje
manhã de neblina levantada
tem ondas, fundões, areeiros,
baixios, correntes e agueiros.
Tem dias pintados de cinzento
céu tombado sobre as águas
que parecem mortas, paradas,
porquando não se vê água nem ar.
E o tempo pára, a vida espera,
no espelho de água e nevoeiro
moldado nas curvas da falua
onde morava aquele pescador.
A mulher aconchegou o toldo,
lona e canas, para tapar o lume
e aquecer a panela com a janta.
Dentro daquele pequeno barco
amarrado no tronco do salgueiro
a meio da Vala de Salvaterra
abrigado do corropio das ondas
empurradas pela maré enchente
salpicadas de vento do fim de tarde.
A brisa que vem do mar, sobe o rio
carrega o sal, o iodo, a humidade cresce
na subida rápida sem obstáculos.
Um rio como o Tejo, enquanto livre,
plano, sem barragens, tempera a terra.
É sistema de ar condicionado do interior,
frescura e humidade no estiolar do campo.
Aporta o ar menos frio ao inverno da lezíria
e na mistura das águas cresce mais vida.
E a vida, costumava dizer a minha Mãe:
- A vida é mais curta que comprida!!!(recordações soltas de um Diário de Bordo, nunca escrito,
em 5 dias de navegação desorientada de Vila Franca a Santarém e volta)